Se você já viu um ou dois filmes da Disney, provavelmente pode adivinhar que estou falando dos pais sumidos ou mortos. Essas mortes acontecem durante o filme ou através da total e inexplicável ausência das figuras paternas e/ou maternas. De Bambi à Frozen, os filmes da Disney são preenchidos de protagonistas órfãs, com pais solteiros ou que têm um vilão no lugar dos parentes. Por que a Disney ama a tragédia? E qual o efeito que todas essas mortes têm sobre as crianças que assistem seus filmes?

O próprio passado trágico de Walt Disney2

Numa entrevista em 2014, o produtor de longa data da Disney, Don Hahn, atribuiu o tema a alguns fatores, incluindo a própria perda trágica da mãe de Walt Disney. Depois do sucesso de Branca de Neve, em 1937, Disney comprou uma casa pra seus pais Elias e Flora e enviou alguns funcionários do estúdio pra corrigir o vazamento de gás da casa. Infelizmente, eles não fizerem o trabalho corretamente e Elias e Flora foram sufocados por envenenamento de monóxido de carbono quando se mudaram.

Apesar do pai de Disney ter sobrevivido, sua mãe morreu. “Ele nunca falava sobre isso”, Hahn relatou, “ninguém nunca falava. Ele nunca falou porque, pessoalmente, se sentia responsável. Há uma teoria – e eu não sou um psicólogo -, mas ele era realmente assombrado por isso. Essa ideia de que contribuiu pra morte da própria mãe era realmente trágica. Ele estava devastado, como qualquer um estaria.”

Não quer crescer? Que pena!3

Outro fato que Hahn apontou se refere a curta duração das animações. “Os filmes tinham 80 ou 90 minutos de duração e a temática era quase sempre crescer. Eram sobre aquele dia em sua vida quando você tem que aceitar a responsabilidade. Simba fugiu de casa, mas teve que voltar. A mãe de Bambi morreu, então ele teve que crescer. Bela só tem o pai, mas ele é sequestrado, então ela tem que assumir responsabilidades. Na forma abreviada: personagens crescem muito mais rápido quando você mata seus pais.”

Irmãos Grimm4

Muitos dos filmes da Disney são baseados em contos de fadas tradicionais, como aqueles compilados pelos irmãos Grimm. Essas fábulas vinham de eras em que, pra ser franco, a expectativa de vida média era uma droga. O historiador de animações Michael Barrier e o autor Jack Zipes já trataram desse tema. Barrier explicou: “Parte da inspiração de Disney pras famílias monoparentais é simplesmente devido à presença de pais solteiros no material de origem, como acontece com Pinóquio”. Zipes acrescentou: “Historicamente falando, as pessoas não viviam muito tempo no período medieval até o início do século 20. Mulheres frequentemente morriam no parto. Portanto, havia muitos pais solteiros, embora os homens tendiam a se casar rapidamente depois de suas esposas morrerem, como em Branca de Neve e Cinderela”.

Quer que desenhe?5

Só pra ter uma ideia de como difundido este tema está nos filmes da Disney, acima está um infográfico útil, ilustrando a situação de alguns dos pais mortos ou desaparecidos mais proeminentes da Disney.

Listando: Alladin: órfão desde criança; Bambi: mãe morta por um caçador; Bela: mãe desaparecida sem explicação; Cinderella: mãe falecida; Ariel: mãe morta por um navio pirata; Pocahontas: mãe falecida; Tod: mãe levou um tiro; Quasimodo: mãe morta por Frollo; Tarzan: pais devorados por um leopardo; Simba: pai assassinado por Scar; Lilo: pais morreram em acidente de carro; Nemo: mãe morta por barracuda.

Fale nos comentários se você lembrou de mais algum. E não se envergonhe de chorar pela mãe da Bambi pela milésima vez.

Mas pense nas crianças!6

Num estudo, os pesquisadores descobriram que personagens tem mais que o dobro de probabilidade de morrer nas animações pra crianças do que num filme pra adultos e o triplo de probabilidade de serem assassinados. O que todas essas mortes fazem na mente em desenvolvimento de uma criança? Algumas coisas.

Uma equipe de cientistas descobriu que “a exposição à morte e violência na tela pode ser assustador pras crianças pequenas e podem ter efeitos longos e intensos. Isso pode ser particularmente problemático quando as crianças não foram preparadas através da discussão franca com os pais ou responsáveis pra enfrentar estes temas.” Em seu estudo, os epidemiologistas psiquiátricos Ian Colman e James Kirkbride concluíram: “animações pras crianças, em vez de serem alternativas inócuas pra carnificina e violência explícita típica dos filmes americanos, comumente focam o assassinato e o caos”.

Então o que devemos tirar de tudo isso? Os filmes da Disney são divertidos, às vezes tristes e podem ser uma maneira útil pra introduzir os seus filhos ao conceito de morte no momento apropriado. Basta estar preparado pra falar com eles sobre o que acabamos de ver, com muitos abraços calorosos.

E se você, como eu, é um dos traumatizados com tantas mortes… Um brinde, sobrevivemos!